Hekate

Através de estudos e registros arqueológicos podemos presumir que é uma Deusa externa a Grécia, sendo encontrada suas origens na Ásia Menor e no Sudoeste da atual Turquia, sendo que em Trácia, Karia e Ionia seu culto era muito difundido e poderoso. Algumas fontes atribuem a origem de Hekate através do seu nome que pode ter raiz egípcia hekat ou hequit. Hequet (Hequit, Heket, Hekat) era a manifestação da Grande Mãe originária de Núbia, Samotrácia e Colchis, cultuada em Aegina, Argos, Atenas e Egito, regente dos partos, das mulheres e crianças, Senhora da magia e sabedoria, Deusa dos ciclos da vegetação e da vida. 

Hekate é uma Deusa muito antiga, multifacetada e abrange muitas possibilidades de descrição, conexão e reverência que é difícil resumi-la em apenas um único texto.

Os gregos tiveram extrema dificuldade para enquadrar Hekate em seu panteão, mas acabaram por considerá-la filha dos Titãs Perses e Astéria (irmã de Leto, a mãe de Ártemis e Apolo), sendo, portanto, prima de Ártemis.  Por ser filha de Titãs estelares, regentes da luz, Hekate usava uma tiara de estrelas que iluminava os escuros caminhos da noite, bem como a vastidão da escuridão interior. Mitos mais antigos lhe atribuíram uma origem mais primal, como a filha de Érebo e Nix, sendo conhecida como Afratos, “A sem nome” e Pandeina, “ A terrível”.
As mais antigas narrativas míticas que apresentam Hekate à sociedade grega são a Teogonia do poeta Hesíodo (entre o VIII e VII séculos a.C.) e o Hino Homérico à Deméter (entre o VII e VI séculos a.C.). Os Oráculos Caldeus identificam-na como o ventre da vida, a partir da qual todo o Cosmos foi criado.
Como a única dos Titãs que preservou seu pleno poder, Hekate era honrada como A primeira e a última, Aquela sem forma e de todas as formas, a própria alma do universo, Criadora de tudo o que existia. Os mitos gregos revelam que o próprio Zeus lhe honra e concedeu um lugar especial entre os deuses, embora não pertencesse ao grupo olímpico, ele respeitou o seu antigo poder. Hekate ficou conhecida por Trivia ou Triformis, a regente do céu, da terra e do mar, além do mundo subterrâneo, doadora da riqueza e das bênçãos da vida cotidiana.
Hekate é uma deusa dos marginalizados e a bruxaria é uma ferramenta dos desprovidos de direitos. Ela é um exemplo popular de um tópico e deidade que é terrivelmente mal-interpretada, mal-representada e normalmente ignorada por causa de sua popularidade ser vista como um incômodo e não como uma característica. Não só por ela ser uma deusa da bruxaria, mas por ser uma deusa de muitas funções e muitos epítetos. “Soteira” (Σώτειρα) significa “salvadora”, um de seus epítetos. Seu deipnon (ceia), durante a lua nova, não era apenas uma forma de lhe fazer ofertas, mas também de prover comida para os desabrigados e famintos. Ajudar os necessitados era uma forma de oferta a ela, por mais que alguns torçam o nariz. Sendo uma deusa de fronteiras e lugares limítrofes, faz sentido ela ser associada com os marginalizados, com a periferia. Ela também era solicitada em questões de justiça e decisões em assuntos domésticos. Ela também é patrona de mulheres feiticeiras como Circe e Medeia. Recorria-se a Ela tanto para fazer quanto para se proteger de bruxaria.

A conexão com Hekate representa para nós um valioso meio para acessar a intuição e o conhecimento inato, desvendar e curar nossos processos psíquicos, aceitar a passagem inexorável do tempo e transmutar nossos medos perante o envelhecimento e a morte.

Hekate nos ensina que o caminho que leva à visão sagrada e que inspira a renovação passa pela escuridão, o desapego e transmutação. Ela detém a chave que abre a porta dos mistérios e do lado oculto da psique; Sua tocha ilumina tanto as riquezas, quanto os terrores do inconsciente, que precisam ser reconhecidos e transmutados. Ela nos conduz pela escuridão e nos revela o caminho da renovação. Nas sombras e na Luz, Hekate nos aguarda. Porém, para receber Seus dons visionários, criativos ou proféticos precisamos mergulhar nas profundezas do nosso mundo interior, encarar o reflexo da Deusa Escura dentro de nós, honrando Seu poder e Lhe entregando a guarda do nosso inconsciente. Ao reconhecermos e integrarmos Sua presença em nós, Ela irá nos guiar nos processos psicológicos e espirituais e no eterno ciclo de morte e renovação. Porém, devemos sacrificar ou deixar morrer o velho, encarar e superar medos e limitações; somente assim poderemos flutuar sobre as escuras e revoltas águas dos nossos conflitos e lembranças dolorosas e emergir para o novo. Quando invocamos Hekate como a Alma Cósmica do Mundo, chamamos por Soteira, aquela que está presente em tudo e em todos, aquela que nos salva, inclusive de nós mesmos. Ela é o fogo estelar, a alma primordial, a partir do qual tudo e todos são gerados.

No último fragmento dedicado a Hekate em Teogonia percebemos as pluralidades funcionais desta Grande Deusa:

“A quem quer, grandemente dá auxílio e ajuda,
no tribunal senta-se junto aos reis venerandos,
na assembléia entre o povo distingue a quem quer,
e quando se armam para o combate homicida os homens,
aí a Deusa assiste a quem quer e propicia, concede vitória e oferece-lhe glória.
Diligente quando os homens lutam nos jogos aí também a Deusa lhe dá auxílio e ajuda,
e vencendo pela força e vigor, leva belo prêmio facilmente, com alegria, e aos pais dá a glória.
Diligente entre os cavaleiros assiste a quem quer,
e aos que lavram o mar de ínvios caminhos e suplicam a Hécate e ao troante Treme-terra,
fácil a gloriosa Deusa concede muita pesca ou surge e arranca-a, se o quer no seu ânimo.
Diligente no estábulo com Hermes aumenta o rebanho de bois
e a larga tropa de cabras e a de ovelhas lanosas, se o quer no seu ânimo,
de poucos avoluma-os e de muitos faz menores.
Assim, apesar de ser a única filha de sua mãe,
entre imortais é honrada com todos os privilégios.
O Cronida a fez nutriz de jovens que depois dela com os olhos viram a luz da multividente Aurora.
Assim dês o começo é nutriz de jovens e estas as honras.”
(Teogonia, 429-452)

Podemos dizer que Hekate é como o Oxford Classical Dictionary descreve “mais em casa e arredores do que no centro do politeísmo grego. Intrinsecamente ambivalente e polimorfa, ela ultrapassa as fronteiras convencionais”.

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Texto: Adriana Rosa
Referências:
MIRELLA FAUR – As Faces Escuras da Grande Mãe
HESÍODO – Teogoni
JANET &STEWART FARRAR- A Deusa das Bruxas
COVENANT OF HEKATE- Temple of Hekate” por Tara Sanchez (http://hekatecovenant.com/membership/mitgliedschaft-auf-deutsch-beantragen/wer-ist-hekate/)
ARISTÓFANES-  As Vespas
SCARLET MAGDALENE- Yes, Hekate Is Political, Witchcraft Is Political, That’s Just How It Is (https://www.patheos.com/blogs/teaaddictedwitch/2019/05/hekate-soteira/?fbclid=IwAR2_5YFGwQm6LiMCGm3EoXaRAmmdMEaDkBsGhmbbDCU7o3seZAcjaEDjNlk)

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