A Responsabilidade No Redescobrimento Da Deusa

A religião da Deusa não é simplesmente um tema da história, mas está vivo hoje nos rituais que as pessoas realizam sozinhas e em grupos, em templos e cavernas, nos grupos de sagrado feminino, nas cozinhas e quintais, nas mãos das benzedeiras e das doulas.

Houve um tempo que as pessoas retratavam a divindade como feminina, como uma Deusa. A Grande Deusa pode ter muitos nomes e imagens, mas sempre representa a divindade como uma presença feminina de luz e sombra, doadora da vida, mas também da morte. Na arqueologia temos escavações revelando uma grande abundância de imagens femininas: entalhes nas paredes das cavernas; símbolos da vulva marcados em tumbas como que para prometer renascimento em um jardim do paraíso; estátuas de mulheres selvagens de seios nus segurando serpentes; estatuetas de 30.000 anos de idade de mulheres com seios e quadris enormes; Deusas dando à luz serenamente sentada em tronos; templos em forma semelhante à silhueta idealizada de uma mulher.

Com a ascensão dos Deuses guerreiros e da religião transcendente desligada da natureza e dos corpos, a Deusa pareceu desaparecer.  As esculturas da Deusa sumiram; as mulheres não mais presidiam rituais religiosos; a Mãe Natureza virou algo a ser utilizado e não mais venerado.
Hoje, a Deusa é redescoberta em diversos grupos de sagrado feminino, temas sobre como plantar a lua, livros sobre a Deusa, a discussão do uso de absorventes, movimentos feministas, influencers digitais, jornadas de ayahuasca , cursos de benzedeiras, cursos de ervas etc. É óbvio que os antigos pagãos ainda continuam sendo as crianças dos Deuses e honrando-os, mas o que vemos nos dias atuais são pessoas que não são pagãs querendo conhecer mais sobre a Deusa e as mulheres buscando a cura do feminino.

Durante certo tempo fiquei muito incomodada com pessoas que não seguiam os Antigos Deuses se utilizarem dos seus nomes para venderem cursos, terapias, aulas de bruxaria e ganharem popularidade em suas redes sociais.  De repente todos vinham de ancestrais que eram bruxas, todos tinham sido iniciados em vidas anteriores e, o mais incrível, ninguém precisava passar por um Treinamento Mágico Formal.
Mas, afinal, estaria a Deusa presente em todo grupo de Sagrado Feminino e com toda pessoa que se diz uma reencarnação de Cleópatra? Creio que sim. 
[1] A própria religião da Deusa nunca foi algo linear, estático e dogmático.  Nunca houve apenas uma única religião da Deusa, representação e forma de culto.  Entendendo a Deusa como sendo a própria Terra, as suas feições e culto irão variar de região para região. Cada cultura irá retratá-la de acordo com sua própria imagem.  Ela é negra na África na face de Oxum; branca e loira na Grécia como Afrodite; de cabelos escuros como Pavarti, e assim por diante.  Óbvio que ao cultuar uma divindade não iremos desrespeitá-la. Imaginem os Deuses como nossos amigos, como você começa uma amizade? Você irá ver as afinidades, descobrirá como a pessoa é, do que ela gosta,  quem é sua família, de onde veio e o que faz. Se você quer agradar o seu amigo(a), não irá dar um presente que ele não goste ou chamar um desconhecido para casa do seu amigo(a) sem que o mesmo tenha permitido. E por qual razão os Deuses iriam se aproximar caso misturemos tudo e estejamos desonrando-os? Os Deuses são vivos, tem histórias e vibrações. Não faz sentido algum, celebrar os Fogos Sagrados de Hekate [2] chamando pombagiras e indianos, por exemplo. É possível perceber que os mistérios são diferentes e o objetivo do ritual é outro?

Este não é um texto para ditar regras, pois você pode cultuar de tudo, mas tenha algo chamado Coerência.  Prestem atenção nos objetivos de cada ritual, estudem a mitologia, conheçam os amigos (as) que você deseja chamar para seu Templo. O mundo espiritual tem todo tipo de energias, e sim, há espíritos que  brincam conosco. Muitas vezes pode-se achar que está surpreendendo no Ritual e os Deuses não chegaram nem na porta. 

A popularização dos rituais na internet, grupos de sagrado disso e daquilo, cursos de bruxaria, ritos de ayahuasca;  muitas vezes traz a ilusão de que o mundo espiritual é cor-de-rosa e os falsos “guias/ magos/ bruxos/ dirigentes” alimentam a idéia de que tudo é permitido e que não há consequência / responsabilidade.

Sapere Aude!

Ouse Saber!

Estamos redescobrindo a Deusa, ela renasce dentro dos nossos corações, portanto, como representantes da Mãe, cabe-nos recuperar os símbolos, nomes, arquétipos, mitologias e imagens. A transformação dos homens e mulheres decorre dessa aproximação com as forças divinas.  Durante algum tempo, Deusa e Deus conviveram de maneira equilibrada.  Somos filhas (os) de ambos. Para honrar a Deusa não precisamos recriminar o Masculino e muito menos para honrar o Deus precisamos reprimir o Feminino. É hora de fazermos as pazes com ambos e permitir que o casal divino volte a atuar no nosso campo simbólico e na construção da persona que somos.

Os Deuses vivem e vivem em você! Abençoados sejamos todos nós!

[1] Não entrarei na parte magística e de canalização, pois não é o objetivo deste texto.
[2] Segue os links de textos para maior compreensão dos mistérios de Hekate:
https://espacooroboro.com/2020/08/13/hekate/
https://espacooroboro.com/2020/08/16/hekate-e-os-oraculos-caldeus/

Texto: Adriana Rosa
Referências:
O Corpo da Deusa, Rachel Pollack
Garotas Selvagens, Patricia Monaghan

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